Azagaia
Lyric page

Cães de Raça (part. Guto)

A raw, sprawling rap about mixed-race identity and colonial hangover in Mozambique.

Azagaia visibility 32 visits Editor's note
person Curated by Ethan Walker Hiper Musicas team
Listener comments

What people are saying

0 comments

Sign in to add a comment. Reporting stays open to everyone.

No listener comments on Cães de Raça (part. Guto) yet.

Editor's note

Azagaia's 'Cães de Raça' and the Mulato's Flag

A raw, sprawling rap about mixed-race identity and colonial hangover in Mozambique.

Mulato é o ódio e o amor e as raças

Azagaia's 'Cães de Raça' opens with 'Eu sou mulato né? Sou mulato sem bandeira.' It's a track that moves from the personal, a white intellectual father, a Black washerwoman mother, into a sharp critique of post-colonial politics. The lyric name-drops figures like Salazar and Craveirinha, grounding its anger in specific history.

The phrase 'mulato sem bandeira' sets the tone. He's a mixed-race person without a clear flag or nation to belong to, caught between identities. The song details trying to fit into Portuguese culture, being called an exclusivist, and the contradictions that follow.

It's a blunt, almost mathematical equation for the mixed-race experience. The line doesn't offer resolution, just states the volatile components that define the position.

The way 'Aqui só passa a minha raça' repeats, turning from a declaration to a kind of grim mantra, sticks with you.

edit_note Ethan Walker · Hiper Musicas team
Lyric sheet

Cães de Raça (part. Guto)

Eu sou mulato né?

Sou mulato sem bandeira Desde a guerra colonial que não tenho trincheira Pai branco intelectual,

mãe preta lavadeira Quis ser igual a ele,

mas sem esquecer minha parteira Quis ser progressista,

chamaram-me exclusivista Quando pedi ao fascista Salazar que me chamasse português Que eu até era benfiquista,

bebia vinho do porto e até era racista Mas também fui independentista,

revolucionário intelectual,

mafalalista Deu lugar a Craveirinha passando por Noémia,

de Sousa Quem disse que a minha vida é só boémia Na tuga o assimilado,

português de segunda Na terra condenado à mecânico ou prostituta Ninguém vence a minha luta Se a mulata arranja job dizem que deu a fruta E quem convence que a má conduta de um mulato que acelera carros Não é minha culpa Não é minha culpa do look que trago em mim De dia odeiam-me De noite amam-me Vamos duma vez acabar com as farsas Mulato é o ódio e o amor e as raças Eu sou um cão de raça Aqui só passa a minha raça Aqui só passa a minha raça Cadela de raça Aqui só passa a minha raça Raça Eu sou preto da senzala a morar numa favela Sou dono da terra sem nunca ter mandado nela Com os amigos quero paz,

com os irmãos faço guerra Por isso sou explorado na minha própria terra Eu sou o único rico que vive na miséria Vivo da pena que sentem de mim,

vivo da miséria Enteado do mundo civilizado,

filho da miséria Sonho para ver se acordo livre da miséria Expulsei colonos,

mas nunca o colonialismo Vi a merda,

baixei a tampa e não puxei o autoclismo Por isso é que a minha casa cheira mal Preto explora preto,

cheira a tempo colonial Mas essa guerra vem do tempo tribal Traí pretos como eu para os brancos do litoral E os brancos no litoral fixaram a capital Puseram os filhos mulatos mais próximos do capital Por isso pretos como eu que não podem ter a cor igual Batem-se para ao menos terem a cor do capital Mas deixem-me dizer-vos a verdade inteira A minha religião,

irmãos,

também é verdadeira A minha catedral é palhota da curandeira E África cura tudo por isso é hospitaleira Eu sou um cão de raça Aqui só passa a minha raça Aqui só passa a minha raça Cadela de raça Aqui só passa a minha raça Raça Eu sou branco,

vivo das casas da zona chique Polana e Sommerchield,

na garagem estaciono um Jeep Não sou bantu,

mas há séculos que sou vip Nas terras de moçambique nasci,

eu sou daqui Ou das terras de Portugal Ai cruz credo,

José e Maria,

vinho e Bacalhau Futebol,

clube do Benfica ou do Porto ou do Sporting Luso vanguardista no desporto Na vanguarda do investimento privado Dono da língua,

dono da obra,

dono das acções do Banco Dono da arrogância,

mas deixa explicar um bocado É que desde a minha infância que sou bem tratado Cresci no ensino privado ou cheguei contratado Pretos e mulatos,

meus primos subordinados Ou irmãos injustiçados,

também sou Cardoso Branco suicida,

Jornalista do povo Colonialista de novo,

pago o preço da cor Da minoria que educou uma sociedade pela cor Luz verde no semáforo das raças Em caso de acidente,

não estou no hospital das massas Branco bom patrão,

na hora das graças Fascista oportunista na hora das desgraças Eu sou um cão de raça Aqui só passa a minha raça Aqui só passa a minha raça Cadela de raça Aqui só passa a minha raça Raça Nós bhai é tudo irmão Nosso vida é fazer negócio,

nosso política é alcorão Nós dar nome,

esse país dar tempero e religião Moçabim-bico,

rajá e mendi na mão Branco,

preto e mulato é tudo cliente do coração Mas bhai só casar com bhai,

nós manter nosso tradição Esse não é racismo não,

pensa um bocado Nosso criança habituou ver,

preto como empregado Preto carregar saco no loja no armazém Preto não gostar salário dizer que bhai é monhé Sim bhai é monhé,

monhé gosta mesquita Gosta carro com motor potente para fazer corrida Gosta dar esmola pobre quando chega sexta-feira Gosta amigo mulato,

gosta fumo e bebedeira Mas essa brincadeira termina mês de jejum Num vai na discoteca,

não faz formula um Usar cofió,

esquecer garrafa de rum Esse mês é sagrado,

bhai não faz mal nenhum Monhé dono da loja sim,

monhé comerciante Fazer dinheiro circular,

ser bom negociante Monhé empresário,

moçambicano de raiz Nós fazer funcionar economia deste país Eu sou um cão de raça Aqui só passa a minha raça Aqui só passa a minha raça Cadela de raça Aqui só passa a minha raça Raça